Paint & Pintura:
Como foi sua chegada à divisão química
do Grupo Formitex?
E. Tadeu H. Souza: No final de 2005, o grupo iniciou
reestruturação e o senhor Alípio (Alípio
Gusmão dos Santos) me convidou a ir para a operação
de distribuição de produtos químicos.
Eu nunca havia atuado na área química do grupo
e para mim foi um desafio, até porque a Brazmo é uma
empresa grande, bem conceituada no mercado. Além disso,
como profissional, foi interessante, já que tive uma
carreira bastante diversificada, envolvendo várias áreas
de indústria, papel e outros negócios. Dessa
forma, eu assumi a diretoria comercial em fevereiro do ano
passado.
Paint & Pintura:
Por que o grupo optou por reunir as empresas numa mesma
operação?
Tadeu: Havia um projeto de organização
do negócio da distribuição química,
que é uma área muito forte no grupo. A idéia
era consolidar os negócios do segmento sob uma única
diretoria de operações e comercial. Assim,
nosso primeiro passo foi reorganizar a Brazmo. Depois,
em meados do ano passado, houve nova reestruturação
interna, na qual as operações Denver Cotia
e Denver Resinas foram incorporadas efetivamente. Isso
foi feito pela sinergia de negócios que há entre
o portfólio de produtos das empresas e que permite
oferecer ao mercado soluções mais integradas. À medida
que a Denver Resinas atua com produtos e soluções
para o segmento de tintas, e a Brazmo e a Denver Cotia
são grandes fornecedores para essa mesma área,
consideramos que poderíamos ter ganhos de escala,
de produtividade da equipe comercial, pela diluição
de custos das operações que antes eram bipartidas
com contabilidade, informática e administração
financeira individuais. Esses ganhos permitiram mostrar
ao cliente que ele teria vantagens efetivas, com apenas
um vendedor indo visitá-lo e entendendo todo o seu
portfólio. Atualmente, em nossa operação
os vendedores foram treinados a visitar o cliente com foco
na empresa. Agora, ele é responsável pela
conta e entende melhor as interações do negócio
do cliente, podendo oferecer melhores soluções.
Paint & Pintura:
E quais são os resultados disso?
Tadeu: Uma das grandes vantagens foi o aumento da
capilaridade, ou seja, começamos a fazer com que as
nossas forças de vendas da Brazmo e das Denvers localizadas
em diferentes estados fossem otimizadas. Além disso,
fizemos uma reorganização de áreas entre
os vendedores, de maneira a não haver duplicidade
de atendimento e ao mesmo tempo garantindo aos colaboradores
que não houvesse perda de receita. Isso permitiu que
nosso cliente visse nesse modelo um ganho de sinergia e negócios,
com vantagens até na otimização de
tempo, já que apenas uma pessoa visita a empresa e
apresenta os produtos e as soluções de forma
integrada. Por outro lado, a área gerencial está passando
por uma repaginação, com gerentes regionais
cobrindo áreas e dando apoio a todos os vendedores
locais com respostas rápidas. Paralelamente ao trabalho
de vendas, houve remodelação da operação
logística, que é o cerne de todo os negócios,
especialmente a distribuição. Contamos hoje
com profissionais extremamente capacitados estudando as melhores
rotas, de maneira a otimizar custos, seja na importação
ou na entrega dos produtos. Temos grande poder de integração
logística, com boa área de importação,
operação portuária, áreas de
tancagem de granéis líquidos em Santos (SP),
entre outras vantagens.
No
meio de todo esse processo, em setembro, foi incorporada
a Denver Farma, distribuidora de insumos e princípios
ativos para a indústria farmacêutica, operação
que se mostrou muito boa, já que, na mesma dinâmica
sinérgica, passou a oferecer aos seus clientes o
portfólio expandido da Brazmo. Dessa forma, acredito
que o cliente vá começar a sentir os benefícios
desse novo modelo agora em 2007, quando ele estará consolidado.
Além disso, neste primeiro semestre nossa grande
meta é enriquecer nosso portfólio, com novos
produtos e matérias-primas de maior valor agregado,
embasados nos estudos que fizemos sobre o negócio
e as necessidades do cliente.
Paint & Pintura:
No final do ano passado, o grupo adquiriu a Bandeirante
Química, segunda maior distribuidora de produtos
químicos do País. Como isso afeta os negócios
da divisão química?
Tadeu: A aquisição da Bandeirante
pelo Grupo Formitex é um marco importante porque a
empresa tem um histórico muito bom no mercado. Esse é resultado
do trabalho realizado ao longo do tempo por toda a equipe
da Bandeirante em relação ao posicionamento
de imagem, penetração no mercado e capilarização
no atendimento. O Abreu (Carlos Fernando de Abreu, diretor
comercial da Bandeirante Química) durante todo esse
período mostrou sua competência na condução
do negócio e fortaleceu seu portfólio, que é mais
voltado ao segmento de tintas e solventes, segmento em que
a Brazmo nunca atuou fortemente. Por isso, o negócio
Bandeirante agregado ao grupo se reveste de importância
muito grande, principalmente em relação à sinergia,
não só pelo que a empresa já representa
no mercado, mas também pelo que ela pode vir a ser,
fortalecida financeiramente. Além disso, ela também
vai poder fortalecer seu portfólio e atuar de forma
mais agressiva no mercado, inclusive oferecendo uma grande
segurança para as distribuídas e para os clientes.
Aliás, quem mais ganha com esse novo modelo são
os clientes, que passam a ter uma empresa não só muito
bem posicionada e conceituada no mercado, mas com solidez
financeira.
Paint & Pintura:
Não houve duplicidade de produtos nas linhas da
Bandeirantes e Brazmo?
Tadeu: Esse foi o grande salto no negócio,
porque, quando comparamos os dois portfólios, ficou
claro que a grade de produtos não é coincidente.
A Brazmo conta com produtos para processos químicos
em geral, incluindo commodities e especialidades, e a Bandeirante,
em contrapartida, também tem as suas especialidades.
Isso foi muito bom, porque não haverá canibalização.
Muito pelo contrário, está havendo uma potencialização
dos negócios, porque tanto uma pode usar a inteligência
de negócios da outra como as estruturas podem ser
compartilhadas. Eu também destaco a decisão
de manter as duas operações independentes,
tomada desde o início da operação e
que permanece em 2007. Assim, a Bandeirante pertence ao Grupo
Formitex e responde à holding nas questões
corporativas, como as demais empresas da divisão química,
mas mantém independência, com diretoria, gestão
interna, de controle, financeira e comercial próprias.
Paint & Pintura:
Na área de tintas também não haverá conflito?
Tadeu: Não. Até porque a Bandeirante é distribuidora
de dióxido de titânio, por exemplo, da DuPont,
e a Brazmo também é. Cada uma tem seus próprios
clientes e isso vai permanecer da mesma forma. Por outro
lado, na área de tintas, que é onde mais nos
aproximamos, a Bandeirante tem um foco específico
em produtos, e posso citar, por exemplo, os da parceira BYK
Chemie, que são muitíssimo desenvolvidos e
bem trabalhados, e os solventes, que a Brazmo não
tem. Acho provável que, com esse novo modelo, algumas
empresas vão começar a concentrar a grade de
especialidades. A Brazmo pode crescer na área de alimentos,
cosméticos e fármacos, segmentos em que a Bandeirante
não tem força e nem se justifica agora tentar
desenvolver porque seria desperdício de energia e
tempo. Por fim, eu acredito que a Bandeirante, a despeito
de tudo que fez ao longo desses anos, tende a crescer e tem
metas bem definidas para isso.
Paint & Pintura:
O processo de profissionalização implantado
na Bandeirante, com a contratação de um
presidente executivo, facilitou a transação
de compra, já que o grupo também vem se
preocupando com esse aspecto há alguns anos?
Tadeu: O processo de profissionalização
nas empresas tem de ser constante. O Grupo Formitex
vem investindo fortemente nele nos últimos anos, por
determinação do nosso acionista. Isso porque
as empresas vêm se tornando cada dia mais complexas
e a profissionalização é necessária
para poder manejar os negócios. Por isso, essa iniciativa
da Bandeirante obviamente vai ser potencializada e a sua
estrutura vai sempre ser profissionalizada com pessoas capazes
e hábeis para poder desenvolver o negócio.
Essa é uma postura da Formitex, que, a partir do momento
da aquisição, entra com o modelo de gestão
adotado pelo grupo nos últimos anos, numa transferência
de know-how para as novas unidades, até porque é necessário
adaptar modelos de gestão, formas de medição
e de apresentação de resultados ao que a corporação
está acostumada e isso só é possível
com a profissionalização.
Paint & Pintura:
Voltando à capilarização, no ano
passado, o grupo tinha intenção de aumentar
sua presença nos diversos mercados do País.
Isso vem ocorrendo?
Tadeu: Esse é um trabalho que continua. A
Brazmo possui filiais espalhadas pelo Brasil todo e a questão
agora é avançar nesse processo. E avançar
nesse caso não significa apenas abrir novas filiais,
porque o custo de uma nova filial hoje em dia é alto,
e se houver uma unidade que não apresente resultados
compensatórios pode se tornar um fator de retrocesso
em vez de incremento do negócio. Em nossa visão,
a divisão química tem de ter produto disponível
em qualquer ponto do País, desde que seja viável
do ponto de vista logístico, porque, como o Brasil é muito
grande, existem produtos de alto valor agregado que podem
ter inviabilizada a sua negociação pelo valor
do frete. A idéia é ter sempre o produto disponível
ao cliente onde ele vai consumir. Se isso pode ser viabilizado
por meio da colocação de uma filial, assim
será feito. Se muitas vezes o entorno do negócio
não capacita uma filial ou uma base local de estoque,
vamos atendê-lo com a melhor inteligência logística
que tivermos. O importante é o cliente receber o material
com custos competitivos, com boa vantagem de negócio
e no prazo que necessita. Por isso as filiais estão
sendo avaliadas, dentro do conceito de medição
de resultados. Assim, as que são rentáveis
serão potencializadas e as não-rentáveis
eventualmente podem ser fechadas, sem configurar desabastecimento
de mercado.
O
caso mais pontual nesse sentido foi o fechamento da nossa
filial do Rio de Janeiro, oito meses atrás, que
não trouxe nenhuma perda de negócio. Muito
pelo contrário, aumentamos nossos negócios
no Rio a partir do atendimento feito por São Paulo.
Isso porque as rotas de entrega são muito bem trabalhadas,
com custos de frete bastante competitivos, e os clientes
recebem o material de um dia para outro, sem se importar
se o produto sai do Rio ou de São Paulo. O cliente
tem de ser atendido na sua necessidade, seja ela qual for.
Não
podemos avaliar da mesma forma uma unidade no Nordeste,
em Recife, porque, pela logística que exigiria,
seria muito mais difícil abastecer o mercado local
a partir de São Paulo. O mesmo acontece no Rio Grande
do Sul e em Minas Gerais, onde a antiga R. Fonseca, hoje
filial Brazmo, nos interessa pela distribuição
logística não apenas para os próprios
Estados como também por atingir o Centro-Oeste.
Outras filiais estão sendo avaliadas do ponto de
vista de custos. Com isso, essa cobertura Brasil será intensificada
em relação a estoques locais e disponibilidade
de material e, principalmente, do ponto de vista de atendimento
comercial.
Paint & Pintura:
Quais são as suas perspectivas em relação às
medidas governamentais de incentivo à construção
civil iniciadas no ano passado e intensificadas com o
anúncio do Plano de Aceleração do
Crescimento (PAC)?
Tadeu: O Brasil, sob vários aspectos, sempre é uma
fonte de negócios inesgotável, tem muito
a crescer. A grande maioria dos itens em que se analisa o
consumo per capita do Brasil em relação a outros
países, até mesmo os da América do Sul,
nos mostra que estamos a anos-luz de distância. Isso
passa por itens básicos de consumo no dia-a-dia até chegar à construção
civil. Por isso qualquer pacote de incentivo a esse consumo é favorável.
Mas, obviamente, o PAC sozinho não resolverá a
situação do Brasil, até por ser um programa
com prazo, ou seja, a vigorar nos próximos dez anos. É necessário
estruturar o País, pavimentar o caminho, para que
se possa ter uma boa velocidade de crescimento à frente.
Questões de infra-estrutura no Brasil são mandatárias.
No nosso caso, em que o negócio é a compra
e venda de matérias-primas e a movimentação
de produtos, é possível ver que a infra-estrutura é um
doente em estado grave. Nas estradas não se tem asfalto,
acostamento, nada. Isso encarece o transporte. Hoje o custo
Brasil é muito alto, mas à medida que começam
a se desatar os nós da infra-estrutura, incluindo
a malha rodoviária e ferroviária, bem como
os investimentos em transporte naval e nas instalações
portuárias, ele pode cair. Além disso, um país
não se faz sem um povo educado, sem cultura e sem
poder de consumo. Essas são questões muito
profundas que não se resolvem num mandato, mas pela
somatória da seqüência de bons governos,
que entendam que um governo está concatenado ao outro. É necessário
que tenhamos mecanismos que prevejam que um governo que entra
tenha de terminar o que o outro iniciou, para que não
ocorram casos como o do Fura-fila em São Paulo, em
construção há dez anos, causando prejuízo
aos cofres públicos, transtorno à população
e atrapalhando ainda mais o trânsito da cidade, que
já é tão caótico.
Mas
o plano, no tocante ao investimento em construção
civil, é muito bom porque essa é uma das áreas
que movimentam o maior volume de mão-de-obra, e
todo o seu entorno – englobando a obra em si, os
materiais básicos e tudo aquilo que vai numa moradia – movimenta
a economia. E isso, seja do ponto de vista de qualidade
de vida das pessoas, seja em movimentação
de mão-obra, gera negócios. Para obter um
crescimento do PIB de 4,5% ao ano, como está previsto
no plano, não basta construir casas. É preciso
permitir que a população possa ter dinheiro,
possa consumir.
Paralelamente
ao PAC, uma coisa que é tão importante quanto
e da qual se fala muito pouco é a reforma tributária.
Isso é algo que deveria ser analisado de forma
muito mais intensa. O governo, em todos os seus poderes,
tem que ter vontade política de resolver esse caso.
Acho que, resolvendo a reforma tributária, o salto
de crescimento seria grande e consistente. Se não
houver um alicerce muito bom, ou seja, se as bases e os
fundamentos que movimentam a economia não forem
fortes, qualquer plano será efêmero. O PAC é bem-vindo,
mas falta a reforma estrutural, que não é só a
vontade do Poder Executivo que resolverá. É preciso
vontade política de todos os poderes, especialmente
do Legislativo. Não podemos mais pensar que o Brasil é o
país do futuro, porque o futuro é hoje. Temos
de potencializar esse conceito e perceber que o futuro
chegou.
Paint & Pintura:
Quais as expectativas para 2007?
Tadeu: Em relação às perspectivas
de negócio, o PAC deve se refletir diretamente no
nosso negócio. Acreditamos que a área de tintas
vai registrar sensível melhora. Cremos que esse mercado
vai crescer muito e estamos nos preparando para ter um ano
interessante. Isso porque, se quando o PIB cresceu 3% nós
tivemos bons resultados, com 4,5% as expectativas são
melhores. O ano passado foi bom, apesar de ser apertado para
todo o mercado, e esperamos que 2007 seja pelo menos tão
bom quanto. Mas isso não depende só das condições
internas, depende dos acontecimentos mundiais. A questão
China hoje é muito importante, do ponto de vista de
matéria-prima e competitividade. As questões
dos Estados Unidos também são muito relevantes,
porque afetam o mundo como um todo. Hoje é totalmente
verdadeiro o conceito de que o mundo é uma aldeia
global, principalmente para o negócio da distribuição.
Se há um aumento de consumo na China, fatalmente haverá baixa
de oferta de produtos e, conseqüentemente, custos mais
altos mundialmente, o que traz desequilíbrio global.
Quando lemos o jornal, não podemos nos ater ao caderno
de economia do Brasil, precisamos ler a página das
notícias internacionais. |