O
negócio de tintas na Argentina recuperou a cor durante
os últimos anos. Se fizermos uma divisão
por segmentos, as tintas decorativas surgem como as líderes
em participação, seguidas pela tinta industrial,
e em terceiro lugar, pela tinta automotiva. Embora não
haja cifras oficiais, considera-se que a tinta decorativa
concentre 65% do mercado; a tinta automotiva, 10%; e a
tinta industrial, 25%, segundo estimativas do mercado.
Os
analistas consultados prevêem que, no âmbito
decorativo, a indústria local está utilizando
80% da capacidade instalada durante setembro a dezembro,
quando ocorre o pico sazonal de consumo. Parece que agora
os argentinos estão incrementando o consumo anual
de tinta no país. Embora a Cámara de la Industria
de la Pintura não disponha de dados fidedignos,
as fontes do setor estimam que este ano o consumo chegará a
4,2 litros habitante/ano, o que significa um aumento em
relação aos 3,5 litros registrados em 2006.
Os especialistas atribuem esse incremento ao maior poder
aquisitivo alcançado pela população
argentina nos últimos quatro anos, com um crescimento
econômico superior a 6%. Os porta-vozes esclarecem
que a expansão não está diretamente
vinculada ao boom da construção que o país
atravessa, pois boa parte do setor privilegia produtos
de menor qualidade para baixar custos e, inclusive, algumas
vendas são feitas sem qualquer registro. Os analistas
sugerem que por causa da recuperação econômica,
os consumidores priorizaram outros gastos, como eletrodomésticos,
e optaram por comprar tintas só para reformas.
Neste
cenário, os players reconhecem que o consumo per
cápita ainda está distante de outros mercados
mais avançados, como Japão ou Alemanha e
inclusive Brasil. No entanto, a diferença do consumo
por habitante na Argentina em relação aos
grandes mercados, como o europeu, reflete o grande potencial
de crescimento que o país apresenta nesse negócio.
O
setor em cifras
O setor cresceu 27% na última
década. As cifras do Instituto Nacional de Estadísticas
y Censos (INDEC) mostram que em 1996 foram produzidas 182
mil toneladas de tinta, enquanto no ano passado a cifra
foi 249 mil toneladas. O setor é tão sensível
ao sobe-e-desce da economia quanto os demais insumos da
construção. Por este motivo, a desvalorização
da moeda local no fim de 2001 se refletiu claramente nos
indicadores daquele ano e, de maneira mais taxativa, em
2002, quando ao baixo consumo doméstico se somaram
a recessão e a queda da produção nacional.
Em 2001, a produção de tintas atingiu 177.938
toneladas, enquanto que em 2002 o índice caiu para
145.351 toneladas.
A
partir de então, os anos seguintes
vislumbraram alta no mercado. Em 2003, a produção
total foi de 215.203 toneladas de tintas; e em 2004, de
235.164 toneladas, segundo o INDEC. Nos últimos
dois anos, a situação econômica ganhou
estabilidade e o crescimento se manteve, porém em
porcentagens menores que nos anos pós-crise. Em
2005, a produção foi de 241.831 toneladas,
quase 7 mil toneladas a menos que em 2006.
Segmentos
Atualmente,
existem no país por volta de 400 fábricas
produtoras de tintas, concentradas principalmente na cidade
de Buenos Aires e em sua região metropolitana, uma
vez que no interior a produção é muito
baixa. Só Rosário e Córdoba são
produtores destacados, com cerca de 10% da tinta industrial.
Nesse
cenário, aparecem os diferentes segmentos
da indústria, encabeçados pelo setor decorativo.
As líderes são a Alba, de capital britânico,
a americana Sherwin-Williams e a local Sinteplast, cada
uma com cerca de 30% do mercado, seguidas pela argentina
Tersuave, com cerca de 10%, conforme os analistas consultados.
O segmento de tinta para a indústria automotiva
está dividido entre a consumida diretamente pelas
montadoras e a utilizada para repintura. Lideram o mercado
da primeira a alemã BASF e a americana PPG; entre
as marcas usadas para repintura, o segmento é encabeçado
pela holandesa Akzo Nobel, seguida pela argentina Sinteplast
e pela Colorín, empresa nacional que passou ao controle
da francesa Lafarge Peintures em julho de 2006. A líder
do segmento industrial é a Sinteplast, com cerca
de 30% do negócio, seguida por fábricas pequenas
dedicadas à produção de tintas.
Movimento
do tabuleiro
O mercado apresenta fusões e aquisições
entre companhias que podem colaborar na evolução
que se espera dessa indústria nos próximos
anos. Já se dá por certa a aquisição
da britânica ICI (Imperial Chemical Industries),
proprietária da empresa líder Alba, por parte
da Akzo Nobel. Apesar da compra não ter sido aprovada
definitivamente, os analistas asseguram que, quando se
concretizar, repercutirá no mercado local. Além
disso, essa aquisição tem um dado curioso:
a compradora é menor que a empresa adquirida – na
Argentina e em toda a América Latina –, o
que fará a Akzo escalar várias posições
neste setor.
A
Alba havia sido comprada da Bunge & Born
em 1996 pela ICI por 390 milhões de dólares.
A transação incluiu as empresas Tintas Coral
do Brasil e Inca do Uruguai e foi o primeiro investimento
da ICI Paints na América Latina. Anos atrás,
a Akzo havia comprado a Miluz, outra companhia local. Para
outros atores do negócio, a sorte não foi
favorável: a companhia Cintoplom, que concentrava
8% de participação no setor, entrou em falência
e retirou-se da negociação.
Um
nicho com potencial
A indústria automotiva argentina
decolou com ânimo nos últimos anos, o que
beneficiou alguns atores do setor comprometidos com esse
segmento. Espera-se que nos próximos anos essa tendência
se acentue. Segundo dados do INDEC, o setor voltou a impulsionar
em junho o crescimento da indústria, ao registrar
uma alta interanual de 29,7%. A multinacional italiana
Fiat anunciou em maio passado que investirá 60 milhões
de dólares na Argentina para fabricar anualmente
50 mil unidades do modelo Siena a partir de 2008 em sua
fábrica de Córdoba, no centro do país.
A Ford investirá 157 milhões de dólares
nos próximos dois anos na Argentina para fabricar
em Buenos Aires dois novos veículos, que serão
comercializados na América Latina.
O
posicionamento do varejo
Os pontos-de-venda no país
são
uma peça fundamental na engrenagem desse negócio.
De fato, os analistas estimam que 80% da comercialização
de tintas na Argentina se concentre no varejo, que se divide
em lojas e depósitos de material de construção,
com 50%, e em redes, em segundo lugar, com os 30% restantes.
Os outros 20%, que completam o bolo, estão divididos
por lojas de grande porte, como Easy, do grupo Censosud,
líder desse nicho.
No
total, existem atualmente 2.300 pontos-de-venda, conforme
informações
do setor. Entre eles estão lojas de tintas, de ferragens,
homecenters, supermercados, hipermercados e depósitos
de material de construção. Ao mesmo tempo,
as fontes consultadas asseguraram que as grandes redes
de varejo de tintas possuem, no total, mais de 600 lojas,
reunidas em um número reduzido de empresários.
Entre os líderes estão as Pinturerías
Rex, uma empresa familiar com 43 lojas na Capital Federal,
Grande Buenos Aires, Rosário, Santa Fé, Bariloche
e Neuquén. Seu faturamento está em torno
de 35 milhões de dólares anuais e sua participação
de mercado é de aproximadamente 7%.
Deste
universo, por volta de 600 lojas pertencentes a 40 empresários
passaram a fazer parte nos últimos meses da Cámara
Argentina de Pinturerías (CAPIN), que começa
a dar seus primeiros passos nesse campo depois de sua criação,
em meados de 2006. |