As
cargas minerais, naturais ou sintéticas, apesar
de não contribuírem diretamente com a cobertura
e a cor de uma tinta, dependendo de sua natureza físico-química
agregam características como alvura, densidade,
pH, dureza, fosqueamento, homogeneidade, textura, inércia
química e opacidade. Além disso, como lembra
o consultor de tecnologia e treinamento da Quimilux, José Aparício
Temperini, bacharel em química pela Universidade
de São Paulo (USP) e mestre na área de química
orgânica pela USP, que trabalhou 20 anos como químico
de desenvolvimento da Tintas Coral, as cargas e as tecnologias
de formulação exercem papel significativo
no aumento de oferta das tintas – principalmente
somando fatores como a competitividade do mercado, o alto
preço do dióxido de titânio (principal
pigmento branco opacificante) e o baixo poder aquisitivo
da população.
Tipos
de cargas
As cargas minerais
naturais, como o carbonato de cálcio, dolomita,
agalmatolito, caulim, talco e diatomácia, constituem
a base do consumo tradicional do mercado de tintas em geral,
tanto aquosas como base solvente, industriais ou arquitetônicas,
nobres ou econômicas. “Em busca de maior competitividade,
os fornecedores desses insumos mantêm oferta cada
vez mais voltada ao desempenho otimizado para oferecer,
além dos tipos tradicionais, outros tamanhos de
partículas reduzidos ou mais uniformes, grau micronizado,
melhor alvura ou característica de cor, alta pureza,
isenção de contaminantes tóxicos ou
solúveis. A partir dos graus com tamanho de partícula
micronizado (10ˉ³ mm) consegue-se o efeito de
espaciador da carga, ou seja, ela é capaz de promover
uma distribuição mais uniforme do dióxido
de titânio e com isso exercer melhor papel no seu
efeito de cobertura”, explica Temperini.
Já o
mercado de cargas minerais sintéticas ou semi-sintéticas,
embora com menor volume de participação,
ocupa no país lugar de destaque e oferece produtos
diferenciados, cujas características de cor, tamanho
de partícula, regularidade do tamanho de partícula,
absorção de óleo, oclusão de
ar e peso específico se tornaram bastante requisitadas
para agregar valor às tintas. São os casos
do carbonato de cálcio precipitado, caulim calcinado
e do sílico aluminato de sódio, que possuem
um efeito otimizado como espaciadores do dióxido
de titânio.
O
consultor da Quimilux esclarece que enquanto cargas minerais
tradicionais exercem papel opacificante em tintas econômicas
com porções de
ar no lugar do polímero, as sintéticas o
fazem em tintas mais nobre, em que não existe descontinuidade
no filme de polímero que envolve o pigmento e as
cargas – o filme da tinta é íntegro
e sem descontinuidade. “A mudança de papel
da carga sintética de pigmento inerte para pigmento
ativo é possível pela oclusão de ar
no interior da carga. Nesse caso, a partícula atuará como
uma microscópica bola de pingue-pongue, ou seja,
uma microscópica casca de mineral envolvendo um
ou mais microscópicas bolhas de ar. Portanto, com
o uso dessas cargas e com o polímero que envolve
toda a superfície da mesma não haverá no
filme da tinta nenhuma descontinuidade. A presença
de ar ocluso no interior do filme provocará melhor
espalhamento da luz, devido às diferenças
de índice de refração dos componentes
ar, resina e carga mineral, promovendo um plus de cobertura”,
explica o consultor.
Temperini
ainda afirma que nesse último
caso a carga mineral atua como pigmento opacificante e
substitui tecnicamente o pigmento de dióxido de
titânio. “A oclusão de ar nos minerais
sintéticos é, portanto, uma tecnologia capaz
de agregar valor aos minerais, tornando-os concorrentes
diretos do pigmento principal, de dióxido de titânio”.
Diferenciação
de preço
Quanto ao preço
de cada uma delas, Temperini explica, que em geral, se
considerar apenas o valor por quilo, as cargas naturais
de granulometria padrão, cuja obtenção
depende de investimentos em lavra, moagem ou micronização,
são mais baratas que as sintéticas ou semi-sintéticas,
que exigem tecnologia e unidades industriais para processamento
e padronização do material.
As
cargas minerais sintéticas, semi-sintéticas
ou naturais micronizadas podem substituir componentes de
alto valor agregado de uma tinta, como o pigmento branco,
dióxido de titânio,
o que não acontece com as cargas naturais obtidas
por moagem simples. “O químico formulador
pode conseguir utilizar uma carga sintética mais
cara e substituir pigmentos ainda mais valiosos numa tinta,
como é o caso do dióxido de titânio,
e no final garantir vantagem econômica para a nova
formulação”, conta Temperini.
Já as
cargas minerais naturais micronizadas, que têm preço
intermediário entre as cargas sintéticas
e as naturais de granulometria padrão, também
podem, de acordo com alguns critérios, promover
a substituição de parte do pigmento branco,
tornando-a competitiva em relação às
cargas sintéticas. “O volume de mercado está dividido
de acordo com as vantagens econômicas e técnicas
conseguidas com a utilização das cargas naturais
comuns, naturais micronizadas e naturais sintéticas,
sempre em função da substituição
do principal pigmento branco da tinta, que é o dióxido
de titânio, e das características da tinta”,
informa Temperini.
Tendências
Sempre existe uma tendência
para utilização de insumos que possam otimizar
recursos, racionalizar itens e promover benefícios
múltiplos. A grande maioria das matérias-primas
para tintas possui capacidade de oferecer essas três
características. “A Tintas Coral, por exemplo,
sempre extraiu o máximo dos insumos e das cargas
minerais, seguindo seus princípios de respeito ao
ser humano e ao ambiente. Os produtos evoluíram
com os avanços da extração, blendas,
micronização e sínteses”, ressalta
Mateo Lazzarin, gerente de laboratório de desenvolvimento. “Hoje
já é possível encontrar produtos com
mais de uma característica, como o extensor de dióxido
de titânio, opacificantes, fosqueantes e auxiliares
para aumento de lavabilidade.” Segundo ele, com o
posicionamento do real frente ao dólar e a excelência
em produtividade de empresas no exterior, atrelada aos
grandes volumes de consumo, tornam esses players competitivos. “Hoje,
já é possível observar empresas que
trazem produtos para o Brasil com extrema competitividade,
como o GCC, algo impensável há alguns anos”,
diz.
A
Suvinil trabalha para otimizar custos por meio da substituição
parcial ou total de matérias-primas
mais nobres, e utiliza as cargas de acordo com as funções
específicas de cada uma. “Todas as inovações
em matérias-primas no mercado beneficiam a cadeia
e os processos produtivos, bem como a busca contínua
da excelência de produtos, tornando-os mais competitivos.
O acesso das empresas brasileiras às tendência
mundiais facilita a disponibilidade e o preço, uma
evolução do mercado”, conclui Wilson
Carlos de Souza, gerente do departamento de laboratório,
pesquisa e desenvolvimento e serviços ao mercado.
Inovações
Segundo
o consultor da Quimilux, os futuros desenvolvimentos deverão
valorizar a obtenção de cargas minerais sintéticas
de tamanho de partícula nanométrica (10-9
m ou 10-6 mm) e, de preferência, com oclusão
de ar. “A obtenção de minerais sintéticos
de natureza nanométrica deverá incorporar às
superfícies das mesmas substâncias capazes
de promover características inusitadas, como autolimpeza,
tintas ignífugas sem liberação de
gases tóxicos e proteção bacteriológica
permanente”, diz.
Para
se ter uma idéia da
diferença entre as cargas atuais e os novos desenvolvimentos,
Temperini faz uma comparação. “As atuais
cargas naturais obtidas por moagem simples apresentam tamanho
de partícula da ordem de dezenas mícrons
(10ˉ³ mm); as micronizadas naturais ou sintéticas,
de uma micra, e estão presentes no mercado na forma
de pó ou em pré-dispersão. As cargas
sintéticas micronizadas com oclusão de ar
estão representadas no mercado nacional pelo caulim
calcinado ou por versões importadas.”
As
cargas nanométricas (10–9mm) já podem
ser encontradas no mercado internacional, principalmente
o carbonato de cálcio precipitado nano. “Porém,
não temos ainda notícia de seu uso no mercado
nacional de tintas. O pigmento nacional com tecnologia
nano, desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), encontra-se em estágio de
pré-lançamento, com produção
semi-industrial pela Bunge, e acreditamos que em breve
estará disponível comercialmente. Os efeitos
de autolimpeza, hidrorrepelência prolongada, ação
bacteriológica permanente, remoção
de odores desagradáveis ou ação ignífuga
sem liberação de gases tóxicos ainda
dependem de desenvolvimento para adaptar a tecnologia existente
em nível mundial para o caso específico das
tintas”, revela Temperini.
Slurry
no Brasil
O atual
processo de produção de tintas se beneficia
da pré-dispersão das cargas minerais naturais,
sintéticas, micronizadas ou não. Alternativamente
ao uso das cargas minerais em pó no processo de
fabricação de tintas aquosas, a concepção
do processo de pré-dispersão ou slurry surgiu,
no Brasil, há cerca de dez anos como forma de acelerar
o processo produtivo, tornar o ambiente fabril livre de
material atmosférico particulado e colaborar com
a higiene industrial. “Hoje o processo de produção
de tintas aquosas com o uso de pré-dispersão
de cargas tornou-se bastante difundido, a ponto de encorajar
fornecedores de cargas a instalar sua unidade de pré-dispersão
junto à fábrica do seu cliente de tintas
ou de promover a produção cativa do slurry
como intermediário de processo na unidade de tintas”,
informa Temperini.
As
empresas Tintas Coral e Suvinil atuam com os dois sistemas,
tanto o pó quanto o slurry. “Ambos
apresentam características distintas, dependendo
da opção do modelo operacional adotado. Uma
vantagem do sistema slurry é a alta produtividade”,
afirma Lazzarin.
Vantagens
O
consultor da Quimilux conta que o fornecimento das cargas
minerais obtidas por moagem simples, os maiores volumes
utilizados pela indústria
de tintas e complementos arquitetônicos não
teriam vantagem de fornecimento por pré-dispersão
ou slurry. “Em geral as pré-dispersões
possuem 30% de água e a empresa arca com o custo
de transporte, que não pode ser compensado no produto
final”, explica. Por outro lado, o processo de micronização
das cargas minerais por via úmida é vantajoso
(em relação à moagem seca) tanto econômica
como ecologicamente; além do resultado final, que é uma
pré-dispersão das cargas ou um slurry. “O
fornecimento dessas cargas pré-dispersas ou em forma
de slurry tem vantagem para o fornecedor de cargas, que
pode se utilizar de um melhor processo de moagem, e também
para a indústria de tintas, que compra carga mineral
micronizada numa forma adequada ao seu processo. Ainda
assim a pré-dispersão das cargas micronizadas
possui um teor de água que pode variar de 30% a
50%, tornando inviável o transporte por longas distâncias”,
diz Temperini.
Ele
ainda lembra que o próprio pigmento
branco – dióxido de titânio – também
pode ser fornecido como pré-dispersão ou
slurry, como é comum nos Estado Unidos. “Por
aqui esse fornecimento ainda é inviável pela
oneração causada pelo transporte por longas
distâncias de um produto com cerca de 30% de água”,
avalia.
O
alto volume de cargas naturais também
se justifica pelo fato de as indústrias de tintas
não fabricarem somente tinta, mas um volume igual
ou às vezes superior de massas e complementos arquitetônicos,
como seladores e texturas, que demandam um volume quase
que exclusivo de carga mineral obtida por moagem simples.
Desenvolvimento
A utilização de slurries
no mercado brasileiro de tintas está relacionada à busca
pela redução e otimização dos
processos produtivos, que reduzem os custos na formulação
e aumentam a performance dos produtos. Sua utilização
começou pelas indústrias multinacionais,
porém a crescente demanda por tintas de alta performance
e baixo custo produtivo promoveu enorme salto dos slurries
no mercado de tintas, com redução dos investimentos
necessários para armazenagem, transporte e manuseio,
o que os tornaram acessíveis às pequenas
e médias empresas, que passaram a adquirir esses
produtos em quantidades menores.
Atualmente,
no Brasil, existem fortes investimentos em ações
voltadas para o desenvolvimento do mercado de slurries
para obtenção
de resultados diferenciados. “A melhor performance
sempre será obtida com a utilização
do que há de melhor de cada mineral. Nosso maior
desafio será obter uma mistura capaz de traduzir
as necessidades de performance esperada pelos nossos clientes”,
afirma Eduardo Kawamura, especialista técnico de
tintas da Imerys, acrescentado que um dos mais eficientes
e econômicos jeitos de blendar diferentes minérios é por
intermédio da produção de slurries. “Garante
maior homogeneidade e reduz o tamanho das partículas
a níveis extremamente vantajosos para aplicações
em tintas”, justifica.
Inovações
A
evolução do setor é fruto do foco
em pesquisa da melhor otimização entre as
diversidades de minerais. Os conceitos da Imerys são
estimulados para oferecer produtos com vantagens perceptivas
para seus clientes. “A linha Brasmite 400 e 475 é um
exemplo de inovação. Trabalhando na constituição
morfológica dos cristais e na curva de distribuição
de partículas, a Imerys elaborou um produto desenhado
para as necessidades do mercado brasileiro, que possui
grande complexidade de produtos e complementos, otimizado
para atender tintas dos mais diversos PVCs e que aumenta
a resistência à lavabilidade e opacidade do
revestimento”, revela Leandro Bizarro da Rocha, especialista
técnico de tintas da Imerys. “Com essa linha,
a Imerys contribui com os fabricantes de tintas na adequação
dos seus produtos às novas exigências que
o Programa Setorial da Qualidade – Tintas Imobiliárias,
coordenado pela Abrafati, implementou no mercado brasileiro”,
salienta Mário Seixas, gerente de negócios
da empresa.
Na
opinião de Marcelo Reis, diretor
comercial da Micron-Ita, as principais inovações
no mercado de slurry são as blendas de cargas minerais,
como carbonato de cálcio natural e precipitado,
caulim, agalmatolito, entre outras. “O principal
apelo dessa forma de fornecimento de carga é que
já vem pré-disperso, o que facilita a produção.
Porém existem correntes contrárias, pois
o mercado de tintas possui várias combinações
de fórmulas e quando se compra cargas em pó os
formuladores têm a liberdade de variar nas concentrações.”
As
melhores opções em cargas minerais
| Empresa |
Produto
inovador |
Descrição |
| Adexim-Comexim |
carbonato
de cálcio natural com partículas nanométricas; |
baixa
absorção, FDA, pureza acima de 99%, extensor
para pigmentos brancos de maior valor agregado sulfato
de bário natural e precipitado, inclusive namométricos |
| Arinos |
linha
Blanc Fixe HG |
tamanho
de partículas 0,5 micra, maior performance no
acabamento das tintas, com um maior brilho do filme
aplicado |
| Bandeirante
Brazmo |
Polygloss
90 |
caulim
processado em alta pulverização que o
caracteriza como um material ultrafino. No aspecto
físico é extensor para sistemas base
solvente ou água de alto brilho, e no aspecto
químico facilita a dispersão do produto,
eliminando a necessidade de moagem |
| J.Reminas |
CMC
Plus e CMC TOP |
aditivo
aplicado como espessante; controlador e estabilizador
da viscosidade; anti-sedimentação; antiescorrimento;
isolante e selante à água em emulsões
asfálticas e betuminosas; promotor da manutenção
da viscosidade de armazenamento; aumento da plasticidade;
substituição parcial ou total dos aditivos à base
de éteres de celulose, como o CMC e o HEC, dependendo
do desempenho necessário |
| Imerys |
Opacilite |
o
vácuo selado dentro das partículas do
Opacilite é o que o diferencia de outros caulins
calcinados convencionais, razão pela qual sua
opacidade é predominantemente superior |
| Itatex |
Saca
AS Plus |
para
produzir revestimentos úmidos e secos com alto
poder de cobertura |
| Lamil |
agalmatolito
e suas especialidades |
cobertura,
lavabilidade, excelente estabilidade e acabamento,
ganho econômico, melhoria frente à intempéries |
| Micron-Ita
Suzano |
Itafin
60 |
produto
com 60% das partículas abaixo de 1 mícron,
que ajuda no poder de cobertura e outras características,
dependendo do tipo de tinta e da formulação.
O fato de esse produto estar em forma de slurry agiliza
o processo de produção da tinta, pois
já vem disperso |
| Mineração
Nemer |
MB1000
- 0,2% |
carbonato
de cálcio natural, que apresenta granulometria
mais fina que a malha 325; com isso, a absorção
em óleo no processo de fabricação
de tintas é superior |
| Mineração
São Judas |
calcitas
com diversos diâmetros médios de partículas |
finalidade
de produzir tintas imobiliárias com maior ou
menor poder de cobertura |
| Minérios
Ouro Branco |
OB-1230
Plus |
carbonato
de cálcio precipitado - apresenta excelentes
características dos carbonatos de cálcio
PPC, substitui o caulim e outras cargas lamelares presentes
nas formulações de tintas; possui uniformidade
granulométrica, relacionando a mesma com uma
baixa absorção de óleo |
| Mocal |
linha
de materiais micronizados |
produtos
com tamanho de partícula ainda menores, possibilitando
maior poder de cobertura nas aplicações,
com grande aceitação no segmento de tintas à base
de água |
| Quimvale |
carbonato
de cálcio extra-leve AA |
melhora
as propriedades mecânicas e óticas das
tintas base água ou base solvente; sua curva
de distribuição granulométrica
e formação de cristais proporcionam alto
poder de cobertura, aumentam a opacidade, auxiliam
no controle da reologia da tinta, apresentam excelente
lavabilidade; é utilizado como um extensor de
dióxido de titânio |
| World
Minerals |
CelTiX |
boa
resistência ao polimento, contribui para o fosqueamento,
aumenta o poder de cobertura, rápida secagem
ao tempo; facilmente disperso em água e sistemas
solventes |
|