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Brasil, 6 de Janeiro de 2009 Busca por notícias:
 
Edição 117 - Entrevista - Rui Goerck
 
Em busca do desenvolvimento do setor
 
Por Marcos Mila
 

Empenhada na melhoria do setor de tintas no Brasil, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) vem desenvolvendo uma série de projetos que visam não só a qualidade das tintas fabricadas no País, mas a atuação responsável de seus associados com foco nas questões ambientais, de saúde e de segurança.

Depois da realização do 10º Congresso Internacional de Tintas – o Abrafati 2008 –, Rui Goerck, presidente do conselho diretivo, fala sobre os seus resultados e destaca o Brasil como o país que lidera a região no desenvolvimento tecnológico do setor pelas inovações em matérias-primas, insumos e equipamentos apresentados no evento. “É o país mais avançado do setor na América do Sul. Os representantes de outros países vêm aqui verificar o que há de novo, com uma participação maciça de latino-americanos.”

Rui Goerck prevê que o mercado vai continuar promissor, encabeçado pelos setores automobilístico e de construção civil. “Os setores de metalurgia, metalmecânica, aços planos (com bobinas pintadas), manutenção industrial, navios, oleodutos e gasodutos estão crescendo talvez até acima dos 5% que se espera para o PIB neste ano. De uma maneira geral, todos os segmentos vão crescer bastante, impulsionados também por uma onda de investimentos em infra-estrutura.”

Paint & Pintura - Qual o balanço que o senhor faz do Abrafati 2008?
Rui Goerck -
A evolução principal desta feira foi a abrangência. O Brasil assume a liderança regional absoluta na questão do desenvolvimento tecnológico no setor por trazer inovações em matérias-primas, processos, embalagens e sistemas tintométricos. É o país mais avançado do setor na América do Sul. Os representantes de outros países vêm aqui verificar o que há de novo, com uma participação maciça de latino-americanos. O que também chamou muito a atenção é que o congresso teve uma evolução técnica, um aumento no número de palestras e de participantes, com palestrantes do exterior em sua maioria, o que deixa claro que o Brasil é um mercado bem significativo no cenário de tintas mundial. E o mundo reconhece essa feira como um canal de comunicação com os fabricantes. Outro aspecto foi o nível de apresentação dos estandes, extremamente elevado, saindo um pouco do apelo pirotécnico e seguindo para a discussão de alternativas e de dúvidas técnicas.

Paint & Pintura - O fato de estar sendo realizado intercaladamente com o ICE (International Coatings Expo), que acontece a cada dois anos, nos Estados Unidos), tornou-o um evento mais importante?
Goerck -
Eu acho que sim, mas independentemente disso, a feira tem o seu próprio corpo.

Paint & Pintura - Os resultados dos segmentos de tintas imobiliárias e automotivas é bastante positivo para este ano. Como estão os outros segmentos?
Goerck -
Eu acho que desponta claramente o setor automobilístico, com 25% de crescimento no mercado interno, um número extremamente expressivo, com uma taxa similar à da China. O grande crescimento inicial, que foi a exportação, está sendo substituído pelo mercado interno, favorecido pelo acesso ao crédito. O fato de a taxa de juros reais estar em um patamar abaixo de 10% faz com que os mercados de consumo de bens duráveis sejam impulsionados. É o caso da construção civil também. A abundância de crédito e a disposição para investimento em reformas devem significar um crescimento entre 6% e 7%. Finalmente, a produção industrial, que é onde a tinta está praticamente em todos os segmentos da economia, é muito dependente do crescimento do PIB. O mercado moveleiro não teve uma boa performance porque uma grande parcela era proveniente da exportação, que caiu muito devido ao câmbio desfavorável. Os setores de metalurgia, metalmecânica, aços planos (com bobinas pintadas), manutenção industrial, navios, oleodutos e gasodutos estão crescendo talvez até acima dos 5% que se espera para o PIB neste ano. Então, de uma maneira geral, todos os segmentos vão crescer bastante, impulsionados também por uma onda de investimentos em infra-estrutura.

Paint & Pintura - Em meados da década de 90 houve aquele boom de investimentos estrangeiros no Brasil. O senhor acredita que isso está acontecendo hoje na mesma proporção?
Goerck -
Na verdade, já é superior. Tem uma nova onda de investimentos na indústria automobilística, em novas privatizações, como o leilão de privatização das estradas. Fala-se ainda na privatização de aeroportos, o que vai melhorar a infra-estrutura brasileira. A questão agrícola de combustíveis renováveis e a alta produção de alimentos e de carne representam grandes oportunidades para que o Brasil seja um grande provedor não só de insumos, mas de bens manufaturados, como máquinas, caminhões, motores, carros, móveis e outros que consomem o nosso produto, que é a tinta. Há também um fator muito importante: na medida em que é fundamental ganho de produtividade para poder competir, os ganhos em processo industrial passam a ser muito importantes e a área de pintura de unidades industriais tem muito a ganhar. Ainda se pode fazer muito em ganho de produtividade nessa área com baixos investimentos, aumentando a qualidade dos produtos.

Paint & Pintura - O segmento industrial exige uma melhor performance das tintas. Os investimentos no setor para atingir a melhoria dessas tintas têm sido significativos?
Goerck -
Nós estamos levando para esses fabricantes produtos que atendam essa necessidade. Eles precisam aumentar a produção com baixo investimento. Todo mundo diz que tem capacidade ociosa, mas na hora de colocar essa capacidade ociosa para operar não tem processo ou não tem produto de qualidade que possibilite aumentar a produção. Para isso, faz-se necessária uma série de atributos e parâmetros, que quando se tem produção baixa não se leva em conta, mas sim apenas o preço. Para atender a essa demanda industrial crescente é preciso produtos com cada vez mais qualidade. Isso nós podemos fazer com tecnologia.

Paint & Pintura - Temos visto algumas linhas de repintura automotiva à base d’água sendo instaladas no País. Isso também é uma tendência de mercado?
Goerck -
É surpreendente a receptividade dos produtos base água hoje na repintura. Não era uma tendência até um ano atrás, mas a aceitação foi muito grande. Ou seja, vai passar da fase de introdução para a fase de ‘necessário’, porque a pressão por questões ambientais, de segurança e saúde do aplicador ganha relevância numa velocidade exponencial. A aceitação é muito grande e muito rápida. Uma vez feito um investimento para a mudança, não tem volta.

Paint & Pintura - O maior entrave para essa mudança ainda é cultural ou é relativo ao investimento?
Goerck -
É preciso um investimento, mas o maior entrave ainda é cultural. No entanto, a pressão vai vir de fora. Obviamente, os fabricantes vão oferecer a tecnologia, mas a pressão vem de fora. As redes de oficinas de concessionárias internacionais começam a colocar os produtos base água como a única opção, mas já há redes de concessionárias de fabricantes instalados no Brasil que já têm isso como meta. Um exemplo é a Fiat, que quer os produtos base água na repintura de sua rede de concessionárias.

Paint & Pintura - Não vai ser necessária uma legislação?
Goerck -
Vai. Essa questão me preocupa porque nós não temos uma legislação específica para componentes orgânicos voláteis (VOC). A Europa já implantou a primeira redução neste ano e vai implantar uma segunda redução em 2010 que é significativa. Eu acho que o Brasil também precisa de uma medida assim.

Paint & Pintura - Qual o papel da indústria de tintas na conscientização da questão ambiental?
Goerck -
A Abrafati representa uma grande parcela da indústria de tintas no Brasil. Ela define os seus pilares muito claramente. O pilar ambiental é fundamental para nós. Definimos que é obrigatório ao associado da Abrafati estar inserido em um programa de responsabilidade ambiental em tintas e, ao mesmo tempo em que fazemos essa exigência, nós explicamos aos associados que gerindo a questão ambiental se obtém ganhos econômicos. Se existe uma perda de resíduos, consumo excessivo de água e de energia, isso se transforma em custos e o nosso programa Coatings Care (Atuação Responsável em Tintas) possibilita essa gestão e reduz esses custos. Estamos também preocupados com a questão das embalagens, que precisam de tratamento e não podem ser descartadas em lixões a céu aberto. Outro pilar é a capacitação, o treinamento técnico do pintor nos diversos segmentos, fazendo também com que ele tenha muito mais conhecimento da questão residual, que tem que ser tratada pelo aplicador e não pelo consumidor final. Então, meio ambiente, capacitação, programas de qualidade relacionados com competitividade e desenvolvimento tecnológico são preocupações da Abrafati.

Paint & Pintura - Em sua opinião, quais as principais dificuldades que o setor de tintas enfrenta hoje no Brasil?
Goerck -
É preciso levar ao nosso público a real importância da tinta, pois é um produto muito importante, mas muito pouco valorizado. Em muitos casos, os clientes não a valorizam; tratam a tinta como uma commodity. Em outros casos, o governo não toma conhecimento dos nossos problemas. Então, prolifera no nosso mercado uma situação complicada. O mercado é desregulamentado e tem vários segmentos com problemas. Na Abrafati, todos os associados têm um programa de atuação responsável que pode ser auditado. É importante subir na tribuna, falar e ter a atenção merecida. Precisamos colocar ordem na casa, ter uma concorrência leal e tributação adequada.

Paint & Pintura - A concorrência desleal ainda é um grande problema no Brasil? Goerck - Sim. E muitos segmentos têm esse problema. Falta fiscalização, regulamentação e falta denúncia. É preciso denunciar. Nosso programa de qualidade acompanha mais de 50 marcas de tintas todo trimestre e nós denunciamos irregularidades, porque é fraude contra o consumidor dizer que está vendendo um produto de qualidade e esse produto, na realidade, não apresenta essas características.

Paint & Pintura - Mesmo assim, as empresas que fazem a sua parte estão crescendo?
Goerck -
Sim. Portanto, imagine se o nosso mercado fosse regulamentado, fosse estruturado.

Paint & Pintura - O mercado brasileiro deve continuar promissor?
Goerck -
Eu acho que sim. Entramos numa fase de crescimento de longo prazo, com base de sustentação, com investimentos na indústria automobilística e em outros setores. A exportação está um pouco prejudicada, mas com uma compensação de crescimento do mercado interno. Se tivermos cinco anos seguidos de crescimento entre 5% e 10% será necessário aumentar algo em torno de 50% a capacidade instalada. Isso em termos de matéria-prima, produção e distribuição.

Paint & Pintura - Como o senhor avalia os resultados do trabalho da Abrafati em prol do mercado de tintas?
Goerck -
O importante é que existe um grupo de pessoas extremamente comprometido com o desenvolvimento setorial e não apenas empresários querendo lucrar. Nós temos esse grupo de pessoas na entidade muito interessado em fazer a coisa certa e em desenvolver o setor de maneira sustentável a longo prazo. Temos gente que trabalha muito, que viabiliza os projetos e os torna realidade. Esses executivos se dividem entre a empresa e os projetos da associação. Sabemos que se não fizermos isso a situação não vai melhorar, não vai chegar num equilíbrio. O ideal talvez nunca chegue, mas precisamos trabalhar para isso. É uma satisfação muito grande trabalhar na Abrafati e ser presidente de um conselho diretivo extremamente atuante e dedicado a essas causas que, ao meu modo de ver, são muito positivas. Vamos trabalhar para desenvolver o setor, primando pela seriedade do negócio. E os resultados estão aí. A Abrafati é muito séria, respeitadora absoluta das leis. Nada acontece sem isso. É uma satisfação encontrar isso não só nos funcionários da entidade, mas no conselho diretivo, que está totalmente focado no desenvolvimento do setor.

 
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