Empenhada
na melhoria do setor de tintas no Brasil, a Associação
Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) vem desenvolvendo
uma série de projetos que visam não só a
qualidade das tintas fabricadas no País, mas a atuação
responsável de seus associados com foco nas questões
ambientais, de saúde e de segurança.
Depois
da realização do 10º Congresso Internacional
de Tintas – o Abrafati 2008 –, Rui Goerck,
presidente do conselho diretivo, fala sobre os seus resultados
e destaca o Brasil como o país que lidera a região
no desenvolvimento tecnológico do setor pelas inovações
em matérias-primas, insumos e equipamentos apresentados
no evento. “É o país mais avançado
do setor na América do Sul. Os representantes de
outros países vêm aqui verificar o que há de
novo, com uma participação maciça
de latino-americanos.”
Rui
Goerck prevê que
o mercado vai continuar promissor, encabeçado pelos
setores automobilístico e de construção
civil. “Os setores de metalurgia, metalmecânica,
aços planos (com bobinas pintadas), manutenção
industrial, navios, oleodutos e gasodutos estão
crescendo talvez até acima dos 5% que se espera
para o PIB neste ano. De uma maneira geral, todos os segmentos
vão crescer bastante, impulsionados também
por uma onda de investimentos em infra-estrutura.”
Paint & Pintura
- Qual o balanço que o
senhor faz do Abrafati 2008?
Rui Goerck - A evolução
principal desta feira foi a abrangência. O Brasil
assume a liderança regional absoluta na questão
do desenvolvimento tecnológico no setor por trazer
inovações em matérias-primas, processos,
embalagens e sistemas tintométricos. É o
país mais avançado do setor na América
do Sul. Os representantes de outros países vêm
aqui verificar o que há de novo, com uma participação
maciça de latino-americanos. O que também
chamou muito a atenção é que o congresso
teve uma evolução técnica, um aumento
no número de palestras e de participantes, com palestrantes
do exterior em sua maioria, o que deixa claro que o Brasil é um
mercado bem significativo no cenário de tintas mundial.
E o mundo reconhece essa feira como um canal de comunicação
com os fabricantes. Outro aspecto foi o nível de
apresentação dos estandes, extremamente elevado,
saindo um pouco do apelo pirotécnico e seguindo
para a discussão de alternativas e de dúvidas
técnicas.
Paint & Pintura
- O fato de estar sendo realizado intercaladamente com
o ICE (International Coatings Expo), que acontece a cada
dois anos, nos Estados Unidos), tornou-o um evento mais
importante?
Goerck - Eu acho que sim, mas independentemente
disso, a feira tem o seu próprio corpo.
Paint & Pintura
- Os resultados dos segmentos de tintas imobiliárias
e automotivas é bastante
positivo para este ano. Como estão os outros segmentos?
Goerck
- Eu acho que desponta claramente o setor automobilístico,
com 25% de crescimento no mercado interno, um número
extremamente expressivo, com uma taxa similar à da
China. O grande crescimento inicial, que foi a exportação,
está sendo substituído pelo mercado interno,
favorecido pelo acesso ao crédito. O fato de a taxa
de juros reais estar em um patamar abaixo de 10% faz com
que os mercados de consumo de bens duráveis sejam
impulsionados. É o caso da construção
civil também. A abundância de crédito
e a disposição para investimento em reformas
devem significar um crescimento entre 6% e 7%. Finalmente,
a produção industrial, que é onde
a tinta está praticamente em todos os segmentos
da economia, é muito dependente do crescimento do
PIB. O mercado moveleiro não teve uma boa performance
porque uma grande parcela era proveniente da exportação,
que caiu muito devido ao câmbio desfavorável.
Os setores de metalurgia, metalmecânica, aços
planos (com bobinas pintadas), manutenção
industrial, navios, oleodutos e gasodutos estão
crescendo talvez até acima dos 5% que se espera
para o PIB neste ano. Então, de uma maneira geral,
todos os segmentos vão crescer bastante, impulsionados
também por uma onda de investimentos em infra-estrutura.
Paint & Pintura
- Em meados da década de 90
houve aquele boom de investimentos estrangeiros no Brasil.
O senhor acredita que isso está acontecendo hoje
na mesma proporção?
Goerck - Na verdade,
já é superior. Tem uma nova onda de investimentos
na indústria automobilística, em novas privatizações,
como o leilão de privatização das
estradas. Fala-se ainda na privatização de
aeroportos, o que vai melhorar a infra-estrutura brasileira.
A questão agrícola de combustíveis
renováveis e a alta produção de alimentos
e de carne representam grandes oportunidades para que o
Brasil seja um grande provedor não só de
insumos, mas de bens manufaturados, como máquinas,
caminhões, motores, carros, móveis e outros
que consomem o nosso produto, que é a tinta. Há também
um fator muito importante: na medida em que é fundamental
ganho de produtividade para poder competir, os ganhos em
processo industrial passam a ser muito importantes e a área
de pintura de unidades industriais tem muito a ganhar.
Ainda se pode fazer muito em ganho de produtividade nessa área
com baixos investimentos, aumentando a qualidade dos produtos.
Paint & Pintura
- O segmento industrial exige uma melhor performance das
tintas. Os investimentos no setor para atingir a melhoria
dessas tintas têm sido significativos?
Goerck - Nós
estamos levando para esses fabricantes produtos que atendam
essa necessidade. Eles precisam aumentar a produção
com baixo investimento. Todo mundo diz que tem capacidade
ociosa, mas na hora de colocar essa capacidade ociosa para
operar não tem processo ou
não tem produto de qualidade que possibilite aumentar
a produção. Para isso, faz-se necessária
uma série de atributos e parâmetros, que quando
se tem produção baixa não se leva
em conta, mas sim apenas o preço. Para atender a
essa demanda industrial crescente é preciso produtos
com cada vez mais qualidade. Isso nós podemos fazer
com tecnologia.
Paint & Pintura - Temos visto algumas
linhas de repintura automotiva à base d’água
sendo instaladas no País. Isso também é uma
tendência de mercado?
Goerck - É surpreendente
a receptividade dos produtos base água hoje na repintura.
Não era uma tendência até um ano atrás,
mas a aceitação foi muito grande. Ou seja,
vai passar da fase de introdução para a fase
de ‘necessário’, porque a pressão
por questões ambientais, de segurança e saúde
do aplicador ganha relevância numa velocidade exponencial.
A aceitação é muito grande e muito
rápida. Uma vez feito um investimento para a mudança,
não tem volta.
Paint & Pintura
- O maior entrave para essa mudança ainda é cultural
ou é relativo
ao investimento?
Goerck - É preciso um investimento,
mas o maior entrave ainda é cultural. No entanto,
a pressão vai vir de fora. Obviamente, os fabricantes
vão oferecer a tecnologia, mas a pressão
vem de fora. As redes de oficinas de concessionárias
internacionais começam a colocar os produtos base água
como a única opção, mas já há redes
de concessionárias de fabricantes instalados no
Brasil que já têm isso como meta. Um exemplo é a
Fiat, que quer os produtos base água na repintura
de sua rede de concessionárias.
Paint & Pintura
- Não vai ser necessária uma legislação?
Goerck
- Vai. Essa questão me preocupa porque nós
não temos uma legislação específica
para componentes orgânicos voláteis (VOC).
A Europa já implantou a primeira redução
neste ano e vai implantar uma segunda redução
em 2010 que é significativa. Eu acho que o Brasil
também precisa de uma medida assim.
Paint & Pintura
- Qual o papel da indústria de tintas na conscientização
da questão ambiental?
Goerck - A Abrafati representa
uma grande parcela da indústria de tintas no Brasil.
Ela define os seus pilares muito claramente. O pilar ambiental é fundamental
para nós. Definimos que é obrigatório
ao associado da Abrafati estar inserido em um programa
de responsabilidade ambiental em tintas e, ao mesmo tempo
em que fazemos essa exigência, nós explicamos
aos associados que gerindo a questão ambiental se
obtém ganhos econômicos. Se existe uma perda
de resíduos, consumo excessivo de água e
de energia, isso se transforma em custos e o nosso programa
Coatings Care (Atuação Responsável
em Tintas) possibilita essa gestão e reduz esses
custos. Estamos também preocupados com a questão
das embalagens, que precisam de tratamento e não
podem ser descartadas em lixões a céu aberto.
Outro pilar é a capacitação, o treinamento
técnico do pintor nos diversos segmentos, fazendo
também com que ele tenha muito mais conhecimento
da questão residual, que tem que ser tratada pelo
aplicador e não pelo consumidor final. Então,
meio ambiente, capacitação, programas de
qualidade relacionados com competitividade e desenvolvimento
tecnológico são preocupações
da Abrafati.
Paint & Pintura - Em sua opinião,
quais as principais dificuldades que o setor de tintas
enfrenta hoje no Brasil?
Goerck - É preciso levar
ao nosso público a real importância da tinta,
pois é um produto muito importante, mas muito pouco
valorizado. Em muitos casos, os clientes não a valorizam;
tratam a tinta como uma commodity. Em outros casos, o governo
não toma conhecimento dos nossos problemas. Então,
prolifera no nosso mercado uma situação complicada.
O mercado é desregulamentado e tem vários
segmentos com problemas. Na Abrafati, todos os associados
têm um programa de atuação responsável
que pode ser auditado. É importante subir na tribuna,
falar e ter a atenção merecida. Precisamos
colocar ordem na casa, ter uma concorrência leal
e tributação adequada.
Paint & Pintura
- A concorrência desleal ainda é um grande
problema no Brasil? Goerck - Sim. E muitos segmentos têm
esse problema. Falta fiscalização, regulamentação
e falta denúncia. É preciso denunciar. Nosso
programa de qualidade acompanha mais de 50 marcas de tintas
todo trimestre e nós denunciamos irregularidades,
porque é fraude contra o consumidor dizer que está vendendo
um produto de qualidade e esse produto, na realidade, não
apresenta essas características.
Paint & Pintura
- Mesmo assim, as empresas que fazem a sua parte estão
crescendo?
Goerck - Sim. Portanto, imagine se o nosso mercado
fosse regulamentado, fosse estruturado.
Paint & Pintura
- O mercado brasileiro deve continuar promissor?
Goerck
- Eu acho que sim. Entramos numa fase de crescimento de
longo prazo, com base de sustentação, com
investimentos na indústria automobilística
e em outros setores. A exportação está um
pouco prejudicada, mas com uma compensação
de crescimento do mercado interno. Se tivermos cinco anos
seguidos de crescimento entre 5% e 10% será necessário
aumentar algo em torno de 50% a capacidade instalada. Isso
em termos de matéria-prima, produção
e distribuição.
Paint & Pintura
- Como o senhor avalia os resultados do trabalho da Abrafati
em prol do mercado de tintas?
Goerck - O importante é que
existe um grupo de pessoas extremamente comprometido com
o desenvolvimento setorial e não apenas empresários
querendo lucrar. Nós temos esse grupo de pessoas
na entidade muito interessado em fazer a coisa certa e
em desenvolver o setor de maneira sustentável a
longo prazo. Temos gente que trabalha muito, que viabiliza
os projetos e os torna realidade. Esses executivos se dividem
entre a empresa e os projetos da associação.
Sabemos que se não fizermos isso a situação
não vai melhorar, não vai chegar num equilíbrio.
O ideal talvez nunca chegue, mas precisamos trabalhar para
isso. É uma satisfação muito grande
trabalhar na Abrafati e ser presidente de um conselho diretivo
extremamente atuante e dedicado a essas causas que, ao
meu modo de ver, são muito positivas. Vamos trabalhar
para desenvolver o setor, primando pela seriedade do negócio.
E os resultados estão aí. A Abrafati é muito
séria, respeitadora absoluta das leis. Nada acontece
sem isso. É uma satisfação encontrar
isso não só nos funcionários da entidade,
mas no conselho diretivo, que está totalmente focado
no desenvolvimento do setor. |