Brasília e Caxias do Sul (RS),
15 de Maio de 2007 - Governos e empresários dos países
do Mercosul iniciaram na semana passada a integração
das indústrias do setor de madeira e móveis.
Proposta pelo Brasil, a integração das
cadeias produtivas visa a incentivar parcerias entre
as indústrias do Brasil, Argentina, Uruguai
e Paraguai, reduzir custos e realizar um esforço
conjunto por mais espaço no mercado internacional. É o
primeiro processo de integração de cadeias
produtivas no Mercosul. A integração é antigo
desejo dos países do Mercosul, mas nunca saiu
do papel. O assunto voltou a tomar fôlego em
2006, quando o Brasil exerceu a presidência temporária
do bloco.
Em
reunião realizada no fim da semana passada
no Paraguai, representantes dos quatro países
do Mercosul decidiram que em julho empresas e governos
apresentarão projetos para tirar a integração
do papel. O financiamento será feito por empresas,
governos e pelo Fundo para a Convergência Estrutural
e Fortalecimento Institucional do Mercosul (Focem),
criado em 2006 e que terá US$ 75 milhões
neste ano e US$ 100 milhões por ano a partir
de 2009.
A
Venezuela passará a fazer parte da iniciativa
quando adotar a Tarifa Externa Comum (TEC) e, assim,
aderir de fato ao bloco. "O Mercosul está começando
a ter uma visão de integração
produtiva. O presidente Lula cobra isso de nós",
disse o secretário interino de Desenvolvimento
da Produção do Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, Nilton
Sacenco.
O
principal alvo do Mercosul é o mercado norte-americano,
que compra 30,6% dos produtos exportados pelo Brasil
e é o maior consumidor de móveis do mundo.
Segundo Sacenco, o bloco sul-americano responde hoje
por menos de 2% do mercado mundial de móveis,
que movimenta cerca de US$ 70 bilhões por ano.
O Brasil exportou em 2006 US$ 1 bilhão em móveis,
enquanto a Argentina registrou vendas internacionais
de US$ 170 milhões. Com um faturamento de US$
9 bilhões no ano passado, a China é o
país que mais exporta móveis no mundo.
A Itália ocupa a segunda colocação,
com US$ 8 bilhões.
Inicialmente,
o governo brasileiro pretende apoiar os pólos produtivos de Bento Gonçalves
(RS) e Ubá (MG). Serão beneficiadas pelo
Uruguai cinco empresas, pelo Paraguai 15 e pela Argentina
dois pólos industriais. A integração
produtiva terá seis frentes de atuação.
Serão criados observatórios comerciais
ligados à universidades para a construção
de uma inteligência comercial. Os países
farão em conjunto ações internacionais
de marketing, com rodadas de negócios e propaganda
de produtos.
Os
governos buscarão afinar as legislações
e normas que regem o setor. Será definida uma
estratégia de gestão da cadeia de fornecedores
a fim de garantir a qualidade. E uma rede de cooperação
voltada à formação de mão-de-obra
será constituída.
Diagnóstico
Renato
Hansen, diretor executivo da Associação
das Indústrias de Móveis do Rio Grande
do Sul (Movergs), e representante das empresas
nos encontros do Mercosul, informou que, na prática,
o Brasil começará a repassar todo o seu
conhecimento em exportações aos demais
integrantes do bloco. "O que nós aprendemos
nestes últimos dez anos será dividido
com os países vizinhos", disse Hansen, acrescentando
que uma das primeiras ações será as
indústrias da Argentina, do Uruguai e Paraguai
voltarem-se para dentro, trabalharem questões
cruciais como capacitação das fábricas.
Hoje o Brasil, sozinho, é o 12 maior exportador
de móveis do mundo. O restante do Mercosul não
aparece na lista.
Segundo
Hansen, que participou de diversas reuniões,
o acordo prevê que os parceiros recebam consultores
para fazer diagnóstico detalhado da situação. "Deverá ser
proposto um roteiro parecido com o que o Brasil fez,
incluindo treinamentos, desenvolvimento de produtos,
e, por fim, a prospecção de mercados",
informou. "Quando o Brasil focou o mercado externo,
a partir de 1998, o Rio Grande do Sul tinha 30 empresas
exportadoras. Hoje tem mais de 300. O Brasil vendia
lá fora US$ 400 milhões e hoje conseguimos
alcançar a barreira do US$ bilhão. É um
longo aprendizado", faz questão de ressaltar
o diretor executivo.
Desde
2003 foram realizados seminários no Brasil
direcionados a discussão da integração
da cadeia madeira/móveis no âmbito do
Mercosul, e, em todos os eventos ficou nítido
a defasagem tanto em tecnologia aplicada à produção
quanto em design. "Este acordo trará mais vantagens
para eles do que para nós", disse outro representante
brasileiro, que pediu para não ter seu nome
revelado. "Na verdade, eles queriam, inicialmente,
fazer as exportações pelo Brasil porque
estamos muito mais avançados", destaca a fonte.
"Este acordo pretende mostrar os caminhos e atalhos
para que possam chegar de forma mais produtiva ao mercado
externo", argumentou Hansen. De acordo com ele, a escolha
pelo pólo moveleiro de Bento Gonçalves
deve-se a proximidade com o bloco e ao case de sucesso.
No caso do pólo de Ubá (MG), é pelo
destaque que obteve nos últimos cinco anos,
firmando-se como pólo exportador sem ter praticamente
nenhuma base anterior, exceção da Itatiaia,
maior empresa do setor de Ubá. Hansen destaca
o apoio da Agência de Promoção
de Exportações (Apex Brasil) e da Abimóvel
na consolidação das exportações. |