Por Fabricio Vieira*
Ao longo de uma trajetória intensa na indústria de tintas e revestimentos, tive a oportunidade de acompanhar de perto as transformações que redefiniram o setor de repintura automotiva. Saímos de um cenário fortemente manual para um ambiente cada vez mais tecnológico, orientado por dados, precisão e eficiência. Avanços na formulação de produtos, aliados à evolução dos processos e às novas expectativas dos consumidores, impulsionaram uma verdadeira revolução no modo como a pintura é pensada, executada e gerenciada.
Hoje, a digitalização deixou definitivamente de ser uma promessa futura para se tornar um pilar central da repintura automotiva - especialmente no ajuste de cores. Um processo historicamente artesanal, baseado na experiência do reparador, na sensibilidade visual e em sucessivos testes, evoluiu com a introdução do espectrofotômetro e, mais recentemente, com sistemas totalmente digitais de formulação, pesagem e gerenciamento da cor.
Mesmo com todo esse avanço, é importante reforçar: a essência do processo continua sendo a funilaria e a pintura. O preparo correto da superfície, a aplicação adequada dos materiais e o controle do acabamento seguem sendo atividades altamente técnicas e dependentes do talento humano. A tecnologia não substitui o reparador - ela amplifica sua capacidade. O futuro da repintura é híbrido: conecta digitalização, automação e know-how humano para entregar resultados superiores.
Outro movimento irreversível é a padronização dos processos, que já começa a redesenhar a repintura automotiva. Tecnologias antes restritas às montadoras começam a inspirar e influenciar o mercado de oficinas. Nas linhas de produção OEM, robôs realizam lixamento, aplicação de tinta e verniz com altíssimo grau de controle, garantindo taxas de transferência de material superiores a 95%, menos desperdício e máxima uniformidade.
Esse avanço impacta diretamente a repintura. Um exemplo claro são as cores cada vez mais translúcidas, que exigem ajustes combinados ao primer de fundo - uma demanda que nasce nas montadoras e chega rapidamente às oficinas. Esse novo nível de complexidade requer processos mais controlados, padronizados e digitais.
Em mercados mais maduros, como o europeu, já é possível ver oficinas adotando automação na aplicação de tintas e vernizes em superfícies planas, aumentando a repetibilidade, a eficiência operacional e a qualidade final. Trata-se de um caminho natural, semelhante a outras evoluções já incorporadas pelo setor, como os processos de polimento automatizado e os sistemas digitais de ajuste e pesagem de tintas.
É nesse contexto que soluções como o VisualizID e, especialmente, a MoonWalk assumem um papel central. A MoonWalk representa um novo patamar para a repintura automotiva: um sistema exclusivo que automatiza e digitaliza as principais etapas do processo de pesagem e ajuste da cor, elevando a precisão a um nível comparável ao de processos robotizados. Com altíssima exatidão na captura e na reprodução das cores, o sistema garante maior consistência das tonalidades entre diferentes lotes e equipamentos, reduz significativamente o retrabalho e contribui diretamente para a sustentabilidade do processo - afinal, acertar a cor na primeira aplicação significa menos desperdício de tinta, solventes, energia e tempo. Somente na América Latina Sul - Brasil, Argentina, Chile e Uruguai - já são 60 oficinas operando com MoonWalk, um número que demonstra claramente que nossa região acompanha de forma ativa as tendências globais de inovação e digitalização.
Vale destacar que, diferente da pintura original realizada em série nas montadoras - com veículos do mesmo modelo, cor e substrato -, a realidade da funilaria e pintura é muito mais complexa. O reparador lida diariamente com diferentes montadoras, modelos variados, históricos distintos de exposição e superfícies que exigem ajustes específicos. Mesmo em ambientes altamente automatizados, ainda é possível observar variações de tonalidade entre lotes, o que evidencia o desafio técnico de alcançar a perfeição na repintura, especialmente em cores especiais e acabamentos sofisticados.
Nesse cenário, a padronização da cor deixa de ser um ideal distante e se torna uma realidade concreta. Sistemas como o PaintManager, que já reúne mais de 1 milhão de fórmulas cadastradas - número que cresce anualmente com os lançamentos das montadoras -, reforçam a necessidade de atualização contínua da indústria e das oficinas para atender às demandas de um mercado cada vez mais exigente.
O futuro da repintura automotiva é promissor e desafiador na medida certa. Digitalização, automação e padronização já fazem parte do presente das oficinas que desejam se manter competitivas. Embora o trabalho artesanal continue sendo essencial, a integração de tecnologias inteligentes, sistemas conectados e profissionais capacitados aponta para um setor mais eficiente, preciso e sustentável.
A indústria está preparada para acompanhar essa evolução com soluções que unem inovação, qualidade e responsabilidade ambiental. E para quem vivencia essa transformação de perto, uma certeza se impõe: estamos apenas no começo da jornada.
*Administrador de empresas e diretor de negócios de Repintura Automotiva e PMC da PPG na América do Sul.



